quinta-feira, 1 de março de 2012

A Genealogia: os meus 20 anos de pesquisa

A GENEALOGIA:
os meus 20 anos de pesquisa
" A verdadeira imagem do passado repassa veloz. O passado só se deixa fixar como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido" (Walter Benjamin)

Iniciei a pesquisa genealógica aos 12 ou 13 anos de idade para demonstrar a influência das navegações e da grande expansão européia, em um trabalho solicitado no colégio, na vida de nossos antepassados, especialmente na decisão de virem para o Brasil.

Como sou “sucateiro” desde pequeno, a tarefa foi mais fácil para mim – imagino –, pois já guardava na memória informações da família, além de objetos, histórias e fotografias daqueles que se foram.

De início já imaginava como e onde viveram os meus antepassados, o que faziam, quantos eram e assim por diante. Pensamentos que despertavam (e despertam) a imaginação e criam situações lúdicas. Eram pessoas com destaque na sociedade da época, meros coadjuvantes ou protagonistas da história? Como viveram, sem luz, sem água corrente, sem internet? Moravam em casas de alvenaria, pau-a-pique, taperas? Como eram suas fisionomias? Eram apenas europeus de olhos azuis e de cabelos louros ou levavam traços indígenas, negros, bugres?

Após anos de pesquisas, lendo diversos documentos de todas as naturezas, mexendo com as histórias guardadas na mente dos parentes, jornais e lendas familiares, tive a oportunidade de desvendar muitos casos dos antepassados até então sepultados na poeira do tempo. Por mais que os avós tentassem velar histórias talvez imorais ou amorais ou de pouco alcance a suas ideias, muitas delas foram reveladas pela documentação deixada.

Boas surpresas!

É claro que não cabe julgar os fatos, a vida dos que já se foram, até mesmo por se desconhecer, categoricamente, o contexto social e o que os levou a adotar determinada posição, conduta ou atitude, enfim, julgar suas vidas. Importa simplesmente que viveram, se felizes ou não, descabe qualquer análise.

Apesar disso, qualquer fato ou história única revelada é, sem dúvida, campo fértil à imaginação, a pensar, a refletir se antigamente a vida não era mais saudável, mais tranquila ou fácil, ainda que as distâncias fossem mais distantes, ainda que a comunicação fosse precária, ainda que as notícias fossem escassas ou talvez inexistentes. Não sei!

Imagino os meus antepassados, embora a vida sem maiores recursos, que conseguiram sobreviver no meio do campo, sem os mínimos recursos, sem vizinhos, amigos e familiares, plantando para viver e “viver” por viver, atravessando oceanos, deixando os seus queridos para trás para nunca mais virem – sequer notícias!, deslocando-se continuamente por inúmeros motivos (conflitos, perseguições, melhores oportunidades, etc.) e, em princípio, sem destino certo. Mesmo assim, apesar de inúmeras incertezas e mais acertos do que erros, pois sobreviveram, conseguiram literalmente “perpetuar a espécie”, levando não apenas a história familiar ao longo de gerações, mas o orgulho da família, da origem preservadas na memória coletiva e passada pela história oral, perpetuando no imaginário familiar.

A “lembrança” familiar neste aspecto é espetacular, pois depois de passados anos, décadas e séculos, ainda se preserva algo “das antigas”, sejam histórias ou estórias, sejam traços físicos que relembram os que se foram, sejam os gestos, enfim, seja qualquer indício que faça lembrar os que nos geraram. Matéria esta a ser analisada, talvez, à luz da lembrança genética ou, talvez, de alguma ciência espiritual. Fato é que todos sabemos de algo dos que nos geraram, por mínimo que seja.

Tais dúvidas em alguns geram inexorável desejo de buscar amiúde o que efetivamente os nossos avós, bisavós e gerações anteriores fizeram, como eram, onde viveram? Guardamos algum traço físico deles? Olhos castanhos, azuis, verdes; de onde vieram? “Defeitos” genéticos foram produzidos por qual ramo: do pai, da mãe, de qual avô ou seriam decorrentes dos casamentos entre parentes? Louro, moreno, ruivo, de onde provém? Ah, não poderia esquecer dos rumorosos casos de amor, os raptos de antigamente; você tem algum bisavó que fugiu de casa para casar?

Enfim, são muitas dúvidas que somente a pesquisa genealógica pode resolver! Não é à toa que doenças tidas como endêmicas ou esporádicas acabam sendo classificadas como sérios “problemas genéticos”, mesmo depois de passadas muitas gerações, a revelar novamente a importância do passado.

Além disso, mesmo aos mais desinteressados por suas raízes é possível perguntar a razão de tal “ignorância”? Talvez por não lhes representar qualquer “lucro” no presente, por não lhes importar simplesmente ou por nada influenciar na vida atual? Não sei, mas uma coisa posso assegurar: sempre é interessante por algum aspecto!

Às vezes vamos parar em locais “estranhos” e acabamos descobrindo alguma ligação do passado com o lugar. Seria mera coincidência ou proposital? Sinceramente não sei! Mas àqueles que se dedicam a estudar a vida dos que os procederam, com certeza encontrarão alguma explicação.

Há 12 anos, ao lançar o Ensaio Genealógico das famílias Brasil e Laureano da Silva, compilei um trecho de um boletim informativo do INGERS, que bem reflete a “arte” da pesquisa genealógica:
Conta-se que, num certo dia, uma pessoa chegada a Miguel Ângelo encontrou o artista em seu estúdio, diante de um enorme bloco de mármore de Carrara, no momento em que estava iniciando o trabalho da célebre escultura de Davi, encomendada por uma senhora de Florença. Essa pessoa perguntou ao artista qual o segredo, qual o modo que o levava - como já fizera tantas outras vezes, a transformar aquele informe bloco de pedra na beleza sem par de uma forma escultórica. Olhando para o bloco de pedra, Miguel Ângelo respondeu que o segredo era muito simples: a figura estava ali dentro, e que ele a via perfeitamente em todos os seus ângulos e detalhes. Dedicava-se, então, a retirar cuidadosamente, o material que a velava e escondia para, removido o último pedaço, encontrar-se diante da figura procurada, ou seja, a estátua. Se o episódio é verdade ou não, ele encerra o valor de uma metáfora que nos pode transportar ao cerne do problema da Genealogia. Com raras exceções, a Genealogia de cada um de nós está presente nos livros eclesiásticos e civis, possível de ser vista aí "em todos os seus ângulos e detalhes". Para tal, basta que, através da pesquisa, cuidadosamente façamos a retirada do material que a esteja velando e escondendo, para, removidas as últimas arestas e o último véu defrontarmos com o procurado: ... nossos ancestrais. Essa é a meta que perpassa todo o projeto de pesquisa genealógica.

Depois de 20 anos de pesquisas genealógicas, além da alegria e emoção que delas resultam, desvelando histórias ocultas no tempo, descobrindo fotografias antigas, encontrando traços comuns e tentando remontar a trajetória de determinado indivíduo e de famílias, posso dizer que aproximam familiares, refaz elos esquecidos pelo tempo e faz bons e verdadeiros amigos.

Ah, e sobre os meus antepassados! Há os de todas as etnias e tipos: portugueses (do continente e açorianos), alemães, índios, negros, espanhóis, franceses, italianos e poloneses; de cabelos lisos, crespos, morenos, louros e ruivos; de olhos castanhos, verdes e azuis; uns com certos e importantes papéis na sociedade local e outros, meros agricultores, carpinteiros ou sem qualquer destaque, mas todos me pariram e disso tenho muito orgulho!

Tal tarefa pode parecer meramente curiosa ou inexpressiva para alguns, mas olvidam de sua importância, pois como bem disse o poeta Mário de Andrade "o passado é lição para refletir, não para repetir", sem esquecer-se de Confúcio: "estuda o passado se queres prognosticar o futuro".

5 comentários:

Eliani disse...

Lindo o que você escreveu, traduz examente o que sinto, em belas palavras! Parabéns!

Sister Weber e Bernardinho - 25 anos depois... disse...

Este teu artigo me deixou muito sensibilizada... este amor que cultivamos por nossos antepassados é a grande herança que podemos deixar para os vêm depois de nós...Já era tua fã incondicional de mais de uma década, agora então... obrigada Diego...

Henrique Fendrich disse...

Gostei bastante! Meus sentimentos em relação à pesquisa genealógica são muito parecidos. Tenho pouco mais de 7 anos de pesquisa. E falta tanta coisa ainda! A analogia com a estátua do Michelângelo é muito interessante.

Sandro. disse...

Bacana Diego. Fiquei muito feliz com o post dos Viero. Lembro agora que uma vez vc descobriu um parentesco com a Jacobina, da parte dos Mentz. Minha mãe tinha uma obra genealógica que se eu achá-la te entrego ok? Abraço...

Daniel Serafim disse...

Maravilha de postagem, acredito que muitos de nós nos identificamos com a sua percepção da genealógia.
Com certeza és um grande estudioso da genealogia e serve de exemplo e inspiração pra muitos que a pouco começaram, ou ainda irão começar.
Parabéns pelas excelentes percepções desse nosso mundo genealógico.
Daniel Serafim Machado