quinta-feira, 15 de março de 2012

Italianos no RS: os Sartori

Italianos no RS: os Sartori
por Diego de Leão Pufal
O sobrenome SARTORI é relativamente comum, existindo em várias colônias italianas no Estado do Rio Grande do Sul, assim como em outros Estados.
Aqui vou tratar dos descendentes de Pietro Sartori, emigrado da Itália para o Rio Grande do Sul na década de 1890 e estabelecido em Porto Alegre, onde deixou descendência.
Pietro chegou no Brasil casado e junto da família de sua esposa, os Castellan ou Castellani, fixando-se inicialmente no 4º Distrito e, depois, no bairro São Geraldo, em Porto Alegre. Talvez fosse irmão de José Sartori, que foi padrinho de batismo de seu primeiro filho, Bartolomeu Sartori.
De sua descendência, consegui descobrir os dados seguintes: 
1. Pietro Sartori (no Brasil: Pedro Sartori), nascido por volta de 1865/1870 na Itália e falecido no dia 1º/10/1933, em Porto Alegre/RS, na Avenida Benjamin Constant, n.º 1.864, de “actus apoplético hemiplegia”, aos 64 anos, comerciante de profissão. Foi filho de Bertoli ou Bartolomeu Sartori e Luigia Heberli ou Eberle, os quais, ao que parece, não emigraram para o Brasil. Pietro casou-se ainda na Itália com Maria Castellani (às vezes Castelan), nascida em 1870 na Itália e falecida em Porto Alegre, depois do marido. Maria foi filha de Giovanni Castellan/Castellani e Luigia Reguelini.
Giovanni Castellan/Castellani nasceu em meados de 1845/1850 na Itália, filho de Michelle Castellani e Luigia Luigi. Na Itália casou-se com Luigia Reguelini, lá nascida em 1844 e falecida a 29/03/1918 em Porto Alegre/RS, já viúva, filha de Luigi Reguelini e Lucia. Giovanni, esposa e filhos emigraram para o Brasil, estabelecendo-se em Porto Alegre. Pais de, no mínimo, cinco filhos:
F1. Maria Castellani, n. cerca de 1870, Itália, onde casou com Pietro Sartori, acima citados.
F2. Luigia Castellano (sic), n. cerca de 1872, Itália. Casou com Giuseppe Zurchelli, italiano, filho de Luigi Zurchelli e Cattarina Carnevale. Pais, ao menos, de: Catarina Zurchelli, n. 28/07/1892, bat. 15/09/1895, Porto Alegre (Igreja de N. Sra. da Conceição), Rosa Zurchelli, n. 08/08/1893, bat. 15/09/1895, Porto Alegre (Igreja de N. Sra. da Conceição) e Ayda Zurchelli, n. 08/10/1894, bat. 15/09/1895, Porto Alegre (Igreja N. Sra. da Conceição).
F3. Florinda ou Clorinda Castellan, n. cerca de 1882, Itália, e fal. 1950, Porto Alegre, onde casou a 08/02/1902, na igreja de N. Sra. da Conceição com Valentin Vicentini, n. 1864, Itália, filho de Simão Vicentini e Lucia ou Luigia Bocaletto. Em 1905 a família de Valentin residia na Avenida Benjamin Constant, em Porto Alegre. Deste casamento descobri cinco filhos, todos nascidos em Porto Alegre: Lúcia, n. 21/09/1902; Simão, n. 13/11/1903; Luiza Waldomira, n. 1º/12/1905; Ida Vicentina, n. 31/03/1909 e João Vicentini, n. 07/06/1912.
F4. Olympia Castellan, n. 1884, Itália. Casou a 29/08/1903, Porto Alegre, na igreja de N. Sra. da Conceição, com Domenico Fumo, n. 1881, Itália e falecido em 1965 em Porto Alegre, filho de Antônio Fumo e Ana. Pais de, no mínimo: Antonieta Anita Fumo, n. 13/06/1904, Porto Alegre, e Angelina Fumo, n. 18/02/1905, Porto Alegre.
F5. Catarina Castellani, n. 20/11/1892, Porto Alegre, e batizada a 25/11/1893 na igreja de N. Sra. da Conceição.
Ao falecer, Pietro Sartori deixou uma casa na Avenida Benjamin Constant, n.º 1867 (antigo n.º 23-A) em Porto Alegre e sete filhos, cujos nomes seguem:
2.1 Bartolomeu Sartori (Bortolo), n. 11/06/1892, Porto Alegre, onde batizado a 22/06/1892 na igreja de N. Sra. da Conceição, onde faleceu a 20/11/1893 (no registro de óbito consta como sendo natural da Itália).
Registro de batismo de Bartolomeu Sartori, de 1892
(Igreja N. Sra. da Conceição, lv. 2, p. 34v,AHCMPA)
2.2 Hermínia Sartori, n. 06/01/1894, Porto Alegre e bat. 31/03/1894, na Igreja de N. Sra. da Conceição. Em 1933 já era falecida. Casou com Olívio Cristino dos Reis, com quem teve um único filho:
3.1 Hormínio Sartori dos Reis, n. Porto Alegre, onde faleceu depois de 1933, solteiro, sem descendentes.
2.3 Henriqueta Sartori, n. 25/01/1896, Porto Alegre e bat. 04/04/1896 na Igreja de N. Sra. da Conceição. Na mesma igreja casou-se a 31/07/1915 com Vitor Antônio de Lucca, n. 1894, Itália, filho de Antônio de Lucca e Philomena. Em 1940 Vitor e esposa residiam na Rua Visconde Rio Branco, n.º 711.
2.4 Elvira Sartori, n. 24/10/1897, Porto Alegre e bat. 25/06/1898 na Igreja de N. Sra. da Conceição. Casou a 20/06/1917 na igreja de São Pedro, em Porto Alegre, com José Ângelo Beretta, n. 1893, filho de André Aquilles Beretta e Maria Luiza. Em 1940 José Ângelo e esposa residiam na Av. Benjamin Constant, n.º 826.
Registro de batismo de Luiza Sartori, de 1900
(Igreja N. Sra. da Conceição, lv. 7, p.  9v, AHCMPA)
2.5 Luiza Sartori, n. 27/01/1900, Porto Alegre e bat. 15/04/1900 na Igreja de N. Sra. da Conceição. Casou a 21/06/1915 na igreja São Pedro com Higino Duarte Pinheiro, n. 1891, Porto Alegre, onde em 1933 já era falecido, filho de Arthur Duarte e Cristina Pinheiro. Em 1940 Luiza era viúva e residente na Avenida Benjamin Constant, n.º 1864. O casal gerou, no mínimo, dois filhos:
3.1 Artur Pinheiro, n. 27/05/1918, Porto Alegre.
3.2 Marília Duarte, n. 25/04/, Porto Alegre.
2.6 Lydia Sartori, n. 04/07/1906, Porto Alegre e bat. 18/08/1906, na igreja de N. Sra. do Rosário e fal. 02/05/1985, Porto Alegre. Casou com Eugênio Mendelski, n. 25/09/1906, Porto Alegre, bat. 25/12/1907, na igreja de N. Sra. dos Navegantes, e fal. 02/08/1972, Porto Alegre, filho de Miguel Mendelski e Alexandra Anna Dulinska. 
Família Mendelski: (de pé) Domenica Francisca Mendelski, Eugênio Mendelski e Luiza Lydia
Mendelski; (sentados) Miguel Mendelski e Alexandra Anna Dulinska. 
Em 1940, Eugênio e esposa residiam na Avenida Coronel Bordini, n.º 104, em Porto Alegre. Pais de uma única filha:
3.1 Lettia Eunice Mendelski, n. 23/02/1930, Porto Alegre, onde faleceu a 25/06/1989. Ali casou com Flávio Tarquínio Pufal, citados em http://pufal.blogspot.com/search/label/Mendelski.
Registro de batismo de Lydia Sartori, de 1906
(Igreja N. Sra. do Rosário, lv. 33, p. 54v, AHCMPA)
2.7 Pedro Sartori, n. 04/05/1909, Porto Alegre e batizado na igreja de N. Sra. das Navegantes. Em 1940 residente na Rua Azevedo Viana, n.º 96, em Porto Alegre. Casou com Isolina de Souza.
2.8 João Pedro Sartori, n. 25/03/1910, Porto Alegre e bat. 24/06/1912 na igreja de N. Sra. dos Navegantes. Casou com Lília Curmann. Em 1940, o casal residia na Rua Benjamin Constant, n.º 1.875, Porto Alegre.

FONTES:
- Arquivo Histórico da Cúria Metropolitana de Porto Alegre (AHCMPA): livros de batismos, casamentos e óbitos das igrejas de N. Sra. do Rosário, N. Sra. da Conceição, São Pedro e N. Sra. dos Navegantes.
- Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APRS): inventários de Porto Alegre e registro civil. 

quinta-feira, 1 de março de 2012

A Genealogia: os meus 20 anos de pesquisa

A GENEALOGIA:
os meus 20 anos de pesquisa
" A verdadeira imagem do passado repassa veloz. O passado só se deixa fixar como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido" (Walter Benjamin)

Iniciei a pesquisa genealógica aos 12 ou 13 anos de idade para demonstrar a influência das navegações e da grande expansão européia, em um trabalho solicitado no colégio, na vida de nossos antepassados, especialmente na decisão de virem para o Brasil.

Como sou “sucateiro” desde pequeno, a tarefa foi mais fácil para mim – imagino –, pois já guardava na memória informações da família, além de objetos, histórias e fotografias daqueles que se foram.

De início já imaginava como e onde viveram os meus antepassados, o que faziam, quantos eram e assim por diante. Pensamentos que despertavam (e despertam) a imaginação e criam situações lúdicas. Eram pessoas com destaque na sociedade da época, meros coadjuvantes ou protagonistas da história? Como viveram, sem luz, sem água corrente, sem internet? Moravam em casas de alvenaria, pau-a-pique, taperas? Como eram suas fisionomias? Eram apenas europeus de olhos azuis e de cabelos louros ou levavam traços indígenas, negros, bugres?

Após anos de pesquisas, lendo diversos documentos de todas as naturezas, mexendo com as histórias guardadas na mente dos parentes, jornais e lendas familiares, tive a oportunidade de desvendar muitos casos dos antepassados até então sepultados na poeira do tempo. Por mais que os avós tentassem velar histórias talvez imorais ou amorais ou de pouco alcance a suas ideias, muitas delas foram reveladas pela documentação deixada.

Boas surpresas!

É claro que não cabe julgar os fatos, a vida dos que já se foram, até mesmo por se desconhecer, categoricamente, o contexto social e o que os levou a adotar determinada posição, conduta ou atitude, enfim, julgar suas vidas. Importa simplesmente que viveram, se felizes ou não, descabe qualquer análise.

Apesar disso, qualquer fato ou história única revelada é, sem dúvida, campo fértil à imaginação, a pensar, a refletir se antigamente a vida não era mais saudável, mais tranquila ou fácil, ainda que as distâncias fossem mais distantes, ainda que a comunicação fosse precária, ainda que as notícias fossem escassas ou talvez inexistentes. Não sei!

Imagino os meus antepassados, embora a vida sem maiores recursos, que conseguiram sobreviver no meio do campo, sem os mínimos recursos, sem vizinhos, amigos e familiares, plantando para viver e “viver” por viver, atravessando oceanos, deixando os seus queridos para trás para nunca mais virem – sequer notícias!, deslocando-se continuamente por inúmeros motivos (conflitos, perseguições, melhores oportunidades, etc.) e, em princípio, sem destino certo. Mesmo assim, apesar de inúmeras incertezas e mais acertos do que erros, pois sobreviveram, conseguiram literalmente “perpetuar a espécie”, levando não apenas a história familiar ao longo de gerações, mas o orgulho da família, da origem preservadas na memória coletiva e passada pela história oral, perpetuando no imaginário familiar.

A “lembrança” familiar neste aspecto é espetacular, pois depois de passados anos, décadas e séculos, ainda se preserva algo “das antigas”, sejam histórias ou estórias, sejam traços físicos que relembram os que se foram, sejam os gestos, enfim, seja qualquer indício que faça lembrar os que nos geraram. Matéria esta a ser analisada, talvez, à luz da lembrança genética ou, talvez, de alguma ciência espiritual. Fato é que todos sabemos de algo dos que nos geraram, por mínimo que seja.

Tais dúvidas em alguns geram inexorável desejo de buscar amiúde o que efetivamente os nossos avós, bisavós e gerações anteriores fizeram, como eram, onde viveram? Guardamos algum traço físico deles? Olhos castanhos, azuis, verdes; de onde vieram? “Defeitos” genéticos foram produzidos por qual ramo: do pai, da mãe, de qual avô ou seriam decorrentes dos casamentos entre parentes? Louro, moreno, ruivo, de onde provém? Ah, não poderia esquecer dos rumorosos casos de amor, os raptos de antigamente; você tem algum bisavó que fugiu de casa para casar?

Enfim, são muitas dúvidas que somente a pesquisa genealógica pode resolver! Não é à toa que doenças tidas como endêmicas ou esporádicas acabam sendo classificadas como sérios “problemas genéticos”, mesmo depois de passadas muitas gerações, a revelar novamente a importância do passado.

Além disso, mesmo aos mais desinteressados por suas raízes é possível perguntar a razão de tal “ignorância”? Talvez por não lhes representar qualquer “lucro” no presente, por não lhes importar simplesmente ou por nada influenciar na vida atual? Não sei, mas uma coisa posso assegurar: sempre é interessante por algum aspecto!

Às vezes vamos parar em locais “estranhos” e acabamos descobrindo alguma ligação do passado com o lugar. Seria mera coincidência ou proposital? Sinceramente não sei! Mas àqueles que se dedicam a estudar a vida dos que os procederam, com certeza encontrarão alguma explicação.

Há 12 anos, ao lançar o Ensaio Genealógico das famílias Brasil e Laureano da Silva, compilei um trecho de um boletim informativo do INGERS, que bem reflete a “arte” da pesquisa genealógica:
Conta-se que, num certo dia, uma pessoa chegada a Miguel Ângelo encontrou o artista em seu estúdio, diante de um enorme bloco de mármore de Carrara, no momento em que estava iniciando o trabalho da célebre escultura de Davi, encomendada por uma senhora de Florença. Essa pessoa perguntou ao artista qual o segredo, qual o modo que o levava - como já fizera tantas outras vezes, a transformar aquele informe bloco de pedra na beleza sem par de uma forma escultórica. Olhando para o bloco de pedra, Miguel Ângelo respondeu que o segredo era muito simples: a figura estava ali dentro, e que ele a via perfeitamente em todos os seus ângulos e detalhes. Dedicava-se, então, a retirar cuidadosamente, o material que a velava e escondia para, removido o último pedaço, encontrar-se diante da figura procurada, ou seja, a estátua. Se o episódio é verdade ou não, ele encerra o valor de uma metáfora que nos pode transportar ao cerne do problema da Genealogia. Com raras exceções, a Genealogia de cada um de nós está presente nos livros eclesiásticos e civis, possível de ser vista aí "em todos os seus ângulos e detalhes". Para tal, basta que, através da pesquisa, cuidadosamente façamos a retirada do material que a esteja velando e escondendo, para, removidas as últimas arestas e o último véu defrontarmos com o procurado: ... nossos ancestrais. Essa é a meta que perpassa todo o projeto de pesquisa genealógica.

Depois de 20 anos de pesquisas genealógicas, além da alegria e emoção que delas resultam, desvelando histórias ocultas no tempo, descobrindo fotografias antigas, encontrando traços comuns e tentando remontar a trajetória de determinado indivíduo e de famílias, posso dizer que aproximam familiares, refaz elos esquecidos pelo tempo e faz bons e verdadeiros amigos.

Ah, e sobre os meus antepassados! Há os de todas as etnias e tipos: portugueses (do continente e açorianos), alemães, índios, negros, espanhóis, franceses, italianos e poloneses; de cabelos lisos, crespos, morenos, louros e ruivos; de olhos castanhos, verdes e azuis; uns com certos e importantes papéis na sociedade local e outros, meros agricultores, carpinteiros ou sem qualquer destaque, mas todos me pariram e disso tenho muito orgulho!

Tal tarefa pode parecer meramente curiosa ou inexpressiva para alguns, mas olvidam de sua importância, pois como bem disse o poeta Mário de Andrade "o passado é lição para refletir, não para repetir", sem esquecer-se de Confúcio: "estuda o passado se queres prognosticar o futuro".