domingo, 20 de julho de 2008

Poesias de Mário da Silva Brasil

A Pena

Si na mente nos gera um pensamento
Da alegria ou da magua originado,
E’ co’a penna que havemos declarado
A causa desse gaudio ou sofrimento.

Mas a bocca não diz-nos num momento
O que a penna nos tenha revelado?
Sim, mas esta ha de tudo conservado
O que aquella levou ao esquecimento.

Co’a penna se fizerem muitas glorias
Que outras tantas cantaram suas memorias,
Relembrando co’ ardor e enthusiasmo

Dessas almas as grandes producções
Que assombram todo mundo e causam pasmo,
Como a excelsa epopéia de Camões!

Santa Maria, 20-6-1909;
Publicado no Jornal A PENNA.

***

Distante

Dois mezes, só dois mezes e, no entanto,
Um seculo parece-me passado
Que do lar me auzentei, do lar amado,
Onde tudo sorria! Mas o pranto

Hoje me innunda a face, chóro, e quanto
Soffro! Saudades tenho do sagrado
Ninho, onde eu era sempre bafejado
Pelo affecto paterno e sacrosanto.

Saudades também tenho dos leaes,
Amigos que venero, mas jamais
Esquecerei a quem, do imo do peito,

Consagro puro e verdadeiro amor,
A quem me tem o coração sujeito:
Virgem das virgens, tentadora flôr!

Porto Alegre, 27-4-1910.

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