sexta-feira, 18 de julho de 2008

Poesias de Mário da Silva Brasil

Dando continuidade à biografia de Mário da Silva Brasil (1889-1962), passo a transcrever algumas de suas poesias escritas a partir de 1906. Muitas delas foram publicadas nos Jornais da época, do interior do Estado, ao passo que outras foram registradas em seu caderno de poesias, preservadas pela filha Maria Brasil de Leão. Respeitou-se a grafia da época, tal como consta no original.


Adeus


Quanto fui cego quando amei-te um dia!
Não percebendo que eras tão finginda,
Fui no teu peito procurar guarita,
Crendo alcançar dulcifica alegria!

Mas esse sonho então que me sorria
Evaporou-se, e agora, eis já perdida
Toda a illusão que acalentei na vida
E era tão cego, pois que nada eu via!

E hoje, sem pejo dessa ingratidão
Com que pagaste meu affecto santo,
Inda me vens falar ao coração?

E’ tarde para ouvir os rogos teus,
E o meu amor que jaz ali a um canto
E’ quem vem dar-te um sempitermo adeus!

Santa Maria, 18-2-1912.
Publicada no jornal PRIMAVERA, nº19,
de 28 fevereiro de 1912.
***

Volupia

Quando os meus olhos nos teus olhos fito
E a minha mão na tua mão aperto,
Eu não sei si é de um sonho que desperto,
E em crêr, no entanto, nesse sonho hesito!

Vejo-te, e louco, loucamente afflicto
Vacillo e penso, sem saber ao certo
Si dizel-o eu te devo, ou, si encoberto
Deve ficar o meu desejo invicto

Escondel-o não posso, é me impossivel,
Pois uma força occulta, irrestível,
Excita-me, embriaga-me ao extremo!

Perdôa! vou dizer-te os meus desejos:
Nos teus labios terei gozo supremo
Si os teus labios puder cobrir de beijos!...

Santa Maria, 18-1-1912,
Publicada no Jornal PRIMAVERA, nº 16,
de 8 fevereiro 1912.
***
Recordação


Como eras bella, si me lembro ainda,
Quando a desdita tive, e verdadeira,
De ver-te e amar-te, na illusão fagueira
De ter ventura sempiterna, infinita!

Como mudaste, quando eras tão linda!
E eras tão meiga, tão gentil, faceira,
Quando fitei-te pela vez primeira;
Mas tudo acaba, tudo passa e finda!

E quando amei-te! mas não quiz a sorte
Que o meu affecto soberano e forte
Durasse sempre! E delle o que ficou?!

Triste, infeliz, cruel recordação,
Porque a saudade o vento já levou
Na voragem dos tempos que lá vão !

Santa Maria, 4-2-1912,
Publicada no Jornal PRIMAVERA,
de 9 de fevereiro de 1912.
***

Deus


No mundo existe um ser que nos domina,
Eterno, justo, bom, puro e potente,
Que rege a terra e rege o mar fremente,
O mar revolto que a ninguem se inclina.

Que envia o raio que nos illumina
Do sol fecundo e sempre aurifulgente,
E que de estrellas cobre o céo luzente
Quando do dia fecha-se a cortina.

Que tudo anima e tudo movimenta,
Que tudo crea porque tudo ostenta
A sua intervenção em terra e céos,

Architecto do mundo e soberano
Supremo do Universo, excelso arcano
Inexplicavel que se chama Deus !

Porto Alegre, 30-1-1919.
Publicado no Jornal ESTRELA DO SUL,
de 30-9-1923,nº40.

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